sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Depois de umas três garrafas

Eu estou descendo uma ladeira sozinha. Sou pequena, frágil, feiosa, sozinha e confusa. Meu mundo é um ciclo confuso de raiva, estrelas amarelas, promessas de nunca, nunca se entregar ao sistema malvado, ser igual aos outros, e eu só quero ser livre, livre, livre, livre, os cortes debaixo da calça ardem às vezes e eu sento na ladeira e imagino o mundo inteiro só chão. Só chão.

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Eu estou trancada no banheiro do apartamento e você está esmurrando a porta dizendo que me quer, por que eu tenho que ser assim, sai daí vamos conversar você está me fazendo sofrer você está me assustando não faz mais assim, e você não entende que existe um abismo por dentro, que eu não consigo separar aquela de antes com a do espelho, que eu preciso sabotar tudo e fazer você ir pra longe de mim porque eu não mereço o afeto de ninguém, e quem você ama é uma fraude.

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Eu estou sozinha numa rua que é só silêncio e não vejo folhas em nenhuma árvore. Não dá pra sentir as pontas dos dedos mais e tudo bem, tudo bem demais se eu já sei lidar com a minha solidão tão bem que me sinto só, e tudo bem, que eu pareço tanto ser que já sou, e tudo bem que vingança já não é mais exatamente meu plano de vida e tudo bem, tudo bem, tudo bem e se eu me arrebentar que mal tem e tudo bem que eu já tive mais do que todo mundo deve ter e tudo bem que tudo bem, porque eu já nem tenho mais as cicatrizes, porque eu tive muita sorte, e se estou na rota de uma catástrofe eu tenho certeza de que vou sobreviver e tudo o mais.


(Mas. E depois?)

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