sábado, 7 de dezembro de 2013

No décimo quarto dezembro

Eu sempre gostei de ter nascido nessa época do ano. Esse clima sanguíneo e exagerado, tão parecido com  a minha personalidade. Ou talvez minha personalidade foi se moldando a esses dezembros tempestuosos. Adoro que o ano acaba e eu estreio uma idade nova. Me força a pensar em mim mesma. E eu sempre adorei símbolos.
Adoro esses dias cheios de sol. Adoro esse clima de fim, de coisas mudando. Adoro, acima de tudo, as tempestades de caos que caem lá pelas cinco da tarde. Se eu pudesse ser um dia, seria o dia sete de dezembro.
Quanto mais eu vivo, menos eu tenho certezas sobre mim mesma. Achei que me conhecia tão bem, a minha vida inteira. Hoje, passei da idade em que acreditaria que minha vida ia começar. Às vezes, eu acho que ela ainda não começou. Tem um aviso? Um cartão, um telegrama que a gente recebe quando a vida realmente começa, ou a vida sempre começou e a gente que não percebe que estar vivo é estar vivo?
Muitas vezes, muitas, eu menti pra mim mesma. Mandei minhas vontades calarem a boca, porque elas não me conheciam. Fingi que não me importava com coisas que me doíam muito por dentro. Agora, eu não sei. Estou num momento de peças do quebra-cabeças todas espalhadas pela mesa. Mas, assim que é bom. Se eu puder ser mais eu mesma, eu mesma de verdade, vou conseguir ser mais feliz. É muito mais difícil do que eu imaginava, ser fiel à pessoa que sou lá no fundo.
Seja lá o que esse ano me reserva (apesar de fazer tantos planos, mas eles nunca dão muito certo), hoje eu vou tirar o dia para estar na minha companhia. E então, querida, o que você quer fazer? O que realmente vai te trazer paz? Eu já vivi muito mais que muita gente vive. Passei por todo o tipo de coisa. Como todo mundo, mas só eu sei o que é ser eu. E isso me basta.
Hoje, isso me basta. A calma dessa música vibrando dentro do quarto. A brisa soprando a cortina, os espelhinhos balançando. É bom ser eu mesma. É cada vez melhor ser eu mesma.
Parabéns pra mim.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Por que você não entende, por que você não vê?
Você está acabando comigo.
E quando eu tento te mostrar, saio da minha conchinha só um pouquinho e você ri, desvia do assunto, não me leva a sério, me dá vontade de voltar pra dentro e nunca mais, nunca mais sair.

domingo, 20 de outubro de 2013

À deriva

Vem me buscar.
A verdade é que eu sou sua das pontas dos pés às pontas do cabelo.
É verdade que as pessoas são o que são e ninguém é especial.
Mas existem combinações, elas existem, eu sei porque eu te encontrei.
Não faz assim, não vai embora, não mente pra mim, não esconde o que você sente, eu sei, eu entendo, eu estou aqui para você.

domingo, 13 de outubro de 2013

Chuva de Crisântemos

Você me fez tão feliz. Você fez com que eu me sentisse tão amada. Tão segura, tão tranquila, nos seus braços, esse seu jeito doce e manso de falar, as suas palavras sussurradas pra mim debaixo do lençol, quando você me despia devagar e quando limpava minhas lágrimas.
É, talvez chegou a hora de despertar do sonho.
Você foi uma névoa densa que me congelou, me fez flutuar por tanto tempo. Estive em transe. Mas é claro, nada disso dura para sempre.
Estou espalhando essas pétalas pela calçada e tentando seguir meu caminho.
Estou me acostumando a ir me deitar sozinha e acordar sozinha. Estou me acostumando a rir sozinha, chorar sozinha, conversar sozinha. Evidente que é besteira achar que eu vou passar ilesa por tudo isso. É muito óbvio pra mim que daqui pra frente, sou outra pessoa. Não sei dizer que pessoa é essa, ou o rumo que vou tomar. Mas por dentro, algo se rompeu. Algo se reestruturou.
Você poderia dizer que eu estou mais forte. É, é verdade. Mas apesar da sua insistência, eu nunca me considerei fraca, não realmente. Seja como for, esses quatro meses mudaram tudo. Me mudaram, para sempre.
E não cabe a mim dizer qual o seu papel nesse novo quebra-cabeça que eu estou montando. Entre, a casa também (ainda) é sua e fique à vontade, mas talvez eu queira mais. Talvez seja minha hora de ir embora.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A sua aposta é alta demais

Esse nosso jogo, tem cartas marcadas. Tudo bem, admito. Você é a banca e está acabando comigo. Enquanto eu me esvaio em champanhe e vou gastando todas as minhas fichas, o batom borrado e a carteira vazia. Mas não se esqueça que quando as fichas acabarem, não vou ter mais nada pra perder. Não vou ter mais como jogar.
Você se diverte assim porque acha que eu sou uma carta que pode ser sacrificada. Que é só um extra, mas não vai te fazer ganhar o jogo. Você me subestima tanto que acredita piamente que pode me deixar cozinhando por tempo indeterminado, porque eu vou estar te esperando voltar. Porque ninguém mais ou nada mais me interessaria (ou se interessaria por mim). Mas você disfarça isso de nobreza, altruísmo, adora encher o peito pra dizer que é um ser humano muito mais evoluído que eu. Que todo mundo. Quando na verdade você só quer escapar para o seu mundinho estéril. Pra não ter que lidar com ninguém. Você diz que quer ajudar todo mundo, mas  está se lixando para os sentimentos das pessoas, para quem precisa de você.

Cuidado. Eu estou virando o jogo e você nem está percebendo. O grande problema dos jogadores que sempre vencem é arrogância. Eles são incapazes de perceber o perigo. Mais um pouco e eu ganho o jogo, quebro a mesa e levo todas as fichas de volta pra casa.

sábado, 5 de outubro de 2013

Os dias perfeitos são aqueles em que eu cheguei em casa só um pouquinho antes da chuva cair, e é fácil me encolher debaixo das cobertas e sentir aquela dorzinha deliciosa em cada músculo e cada tendão, enquanto o tempo esbraveja lá fora e o trânsito continua irritado, mas eu estou longe, longe. Nesses dias, a única coisa capaz de me impedir de acender um cigarro seria uma ligação sua, mas é fácil saber que ela não vem, então eu observo a chuva castigando a cidade enquanto vou me matando. Depois de tanto tempo e depois de tanta mágoa pela mesma coisa, estou começando a ficar convencida de que estou enlouquecendo. Depois de tanto tempo com os pensamentos correndo em círculos, às vezes me dá aquela sensação inegável de fim. É difícil, você percebe, me manter alegre e firme quando a discrepância é tão grande e tão óbvia; quando eu tenho tantas lembranças daquele seu sentimento de amor-quase-veneração. Quando a sua voz ecoa tão distante, indiferente e apática, eu procuro entender e ver que você está confuso e precisa da minha compreensão, mas talvez eu esteja me enganando, porque sou eu quem precisa da minha compreensão para fingir para mim mesma que tudo isso ainda tem jeito. Depois de chorar tantas vezes que já perdi a conta pelo mesmo maldito motivo, me pergunto às vezes se você não iria se arrepender depois, mais tarde e se eu não deveria ser mais paciente, mais altruísta. Talvez o momento de eu reconhecer que estou travando uma batalha perdida, está próximo. Já consigo até me imaginar, capengamente, eu me erguendo e levantando. Nem sei por onde iria recomeçar, por onde ia me refazer, ser uma pessoa totalmente nova e diferente, diferente de tudo que já fui, com uma vida desconhecida pela frente. Mas seria, eventualmente, seria. Talvez quem sabe, fosse até melhor assim. Talvez, se eu ao menos conseguisse encontrar dentro de mim aquela das tardes perdidas no computador, aquela, que não sabia o que era ter você para quem isso não fazia a menor falta. Se eu conseguisse lavar você com a água da chuva, se eu conseguisse um mapa que me dissesse para onde devo ir para retomar a minha vida, aonde ela está, talvez eu o fizesse agora mesmo. Mas enquanto isso, vou tentando me conformar, pouco a pouco. Seus silêncios traduzem em melancolia para mim. A força que eu faço para ficar quieta e calma está me deixando amargurada. Como eu posso massagear o seu ego se você diz que não tem um? Como eu posso te fazer feliz se você mesmo admite que é incapaz disso? Ando me sentindo um fracasso, incompetentemente humana, talvez humana demais para você. É triste pensar, mas não posso negar que você pode não ter errado, quando disse que esperava de mim um milagre. Eu não sou um milagre. É possível que eu não seja mesmo o que você precisa.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Você acha que é bem assim. Você acha que está tudo certo. Você pode até ter razão. Não vou mentir que você provavelmente está certo.
Mas não é pra sempre. Não é bem assim. É nas suas certezas que vão brotando as minhas dúvidas.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Sessão de Análise II

Mas então, por que você gosta dele?

- Bom. É engraçado como essa pergunta é muito simples e muito complicada ao mesmo tempo. Eu gosto por muitas razões. Algumas são as mesmas que me fazem odiá-lo, muitas e tantas vezes. Eu acho que eu tenho essa sina, de querer gente que não me quer. De querer gente emocionalmente indisponível. Sempre gostei de um delicado, um complicado, um intelectual, um introspectivo. Mas dessa vez, acho que eu me superei. É que tudo na nossa história é surreal. É mágico. É piegas falar assim, eu sei, mas é amor. É amor desde o começo. Desde o primeiro dia, desde sempre. Ele me deu uma coleção de memórias para a vida inteira. De dar inveja em muita gente com o dobro da minha idade. Tudo foi tão mágico. Foi tão surreal e ao mesmo tempo tão de verdade, como poucas coisas na vida. Eu quis ser eu mesma. Eu pude ser eu mesma. Eu gostei de ser eu mesma.
Ele tem aquele charme dos quietos. Aquele jeitinho de abaixar o olhar e sorrir de um jeito tímido. Ele é tão, tão lindo mas é tão engraçado, ele não faz ideia, não tem a menor noção do poder que ele tem, de tudo que ele pode conseguir com aqueles olhos que parecem duas contas de vidro, aqueles braços, aquele corpo, aquele cheiro, aquele tudo. Às vezes, eu acho que ele até sabe, mas ele preferia que não fosse assim, preferia se esconder porque ele está bem acima dessas questões. Eu não estou acima de nada disso. Eu podia ficar olhando para ele por horas, coisa louca, nunca achei a forma masculina nem agradável ao olhar, mas desde a primeira vez que ele tirou aquela camisa larga demais para ele, eu entendi do que os atenienses estavam falando. É milimetricamente desenhado. É de dar inveja em muito Adônis, Eros, Hércules por aí. E é um segredo só meu. É só pra mim.
Ele gosta de falar difícil. De falar de coisas que eu não entendo. Ele é racional e contido, não gosta de explosões, prefere o equilíbrio, mas por trás de tudo isso, existe uma selvageria, uma coisa indomável, que eu vejo por trás dos olhos dele de vez em quando. É por esse fogo que eu me apaixonei. É por esse desafio de tentar fazer esse fogo vir a tona, vir logo, de uma vez. Eu sou uma menina boba, acho que eu quero esse desafio, eu quero fazê-lo se apaixonar por mim. Eu quero que ele se apaixone por mim. Em todos os sentidos, de todas as maneiras.
Ele é um vampiro de almas. Estar nos braços dele é uma escuridão densa, que penetra fundo, me deixa sem ar. Não é fogo que arde, transforma tudo em cinzas e se extingue. É um fogo mágico, químico. É alquimia, é feitiçaria. São chamas escuras que penetram a minha pele e vão queimando lentamente. Queimam por dias. Cada vez mais fundo, até eu não conseguir mais respirar. É terrivelmente delicioso ser dele. Acho que, pela primeira vez, eu fui de alguém por inteira. Da ponta dos pés aos último fio de cabelo. Porque não existe espaço para mais nada. Ele faz questão de render cada célula, cada átomo. É viciante, é uma heroína que dá um barato lento, que vai cozinhando cada nervo. Quando acaba, eu preciso de mais. Antes, podia ser qualquer um. Agora, acho muito difícil que alguém se compare. 
No fim das contas, é tão difícil. O mais difícil é saber que todas essas coisas que eu sinto, não significam nada para ele. Aliás, ele provavelmente as despreza. Provavelmente desaprovaria meu jeito de amar, mais uma vez. De ser tão apaixonada por tudo, quando nada disso é real. Quando nada disso importa.
Talvez ele tenha razão. Mas dói de verdade. A abstinência dói em cada músculo, dói no estômago, dói na boca, dói nos olhos, dói no coração. Eu poderia te dar muitas outras razões para gostar dele. Podia te dar tantas outras para não gostar e mais um monte para odiá-lo. Mas a verdade é que eu gosto e pronto, como eu soube que iria ser, como eu sempre sei, desde a primeira vez que o vi. Deu um estalo. Eu soube que ia ser diferente.


E foi.
Admito, você me reconquistou.

Eu fui me apaixonando devagar... Ressabiada, desconfiada, fui me atraindo pelas suas esquinas, pelos seus habitantes, pelas suas luzes tremeluzentes tão intrépidas. Fui desejando suas vielas, suas avenidas largas, seus faróis e transeuntes apressados, suas faixas de pedestres.
E resolvi ficar.
Você conquistou com esse seu jeito intenso de pulsar vida por todos os lados, nas encostas, nos helicópetos, no barulho incessante do tráfego. Você me deu noites - e dias - para lembrar pra sempre, e pela primeira vez eu fui feliz. Com você, fui bem-vinda, acolhida, querida.
Esse amor bandido. Você também me fez sofrer. Me rejeitou, me fez me sentir inadequada, estressada, irritada. Você me maltratou. Me deu tudo e me tirou tudo. Você me levou do céu ao inferno. Nos mesmos lugares, nas mesmas esquinas.
Mas hoje eu vejo, que não há escapatória. Você aprisionou minha alma, me fez sua.
E agora, quando olho pela janela e vejo um mar de janelas e postes a perder de vista, não tenho dúvidas.
Eu amo você.
Amo como uma adolescente ama o seu primeiro amor, amo porque você me ama de volta.
Eu sei que ama.
Hoje, estou novamente entregue, encantada, cegamente necessitada de cada sopro de vida e cada sensação de bem-estar.
Você, minha gigante querida, é o amor da minha vida.
São Paulo, meu amor, minha dor, meu lugar, meu pedacinho de tudo que se desdobra em mil e ecoa em todos os espaços e cantinhos do meu ser.
Você me reconquistou.

domingo, 11 de agosto de 2013

Nunca ninguém morreu de amor. Eu não vou ser a primeira.
Vai doer em cada célula e cada átomo e cada vazio e perfurar por dentro como aquela lâmina de sangue e vidro que preenchia meus pesadelos.
Vai doer como só essas coisas doem.
Mas estou viva, vou sobrevivendo.
Sempre fui forte, já perdi muita gente.
Já passei por coisas piores.
Eu vou indo calejada e toda retalhada mas vou me cicatrizar inteira.
Nem te mando a conta dos banhos de sal que vou tomar para curar cada ferida.
Depois daqui, pode deixar. Você não precisa mais saber de mim.
Nem se quiser.
Nem se pedir.
Até lá, vou sobrevivendo.
Nunca ninguém morreu de amor.
Eu. Não. Vou. Ser. A. Primeira.
Dor. De novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo, de novo meu deus do céu, por que é que eu nunca aprendo?

sábado, 10 de agosto de 2013

A sua frieza é como um espinhaço. Vai arranhando, vai machucando, vai me envenenando. Mas não vai me matar. Vai apenas matar a minha vontade de você.
Eu vou sumir no mundo. Eu sempre tive vocação para ser nômade. Gosto de ser forasteira. Minha natureza é assim.
Você acha que não precisa de ninguém. Talvez você não precise mesmo. Talvez você se baste.
Não se preocupe, porque vai doer mas vai passar. Vai passar como muita já coisa já doeu e passou.
Estou assim, preenchida de você até o último fio de cabelo, mas vou exorcizar cada partezinha sua dentro de mim. E um dia vai ser só uma lembrança, uma época, uma história.
Mas você vai se lembrar de mim. Eu te garanto que você vai se lembrar.
E quando eu me recompor, quando eu sair das sombras, quando eu voltar a brilhar, você vai me querer de novo.
Tarde demais. Vai ser tarde demais.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Solidão. O silêncio das estrelas, a ilusão.

Quando a mente pára, fica estática e só dá pra escutar o estalido insistente do sangue correndo. Biologia implacável. Maldito arranjo de átomos que me fez saber que eu sou. Quando foi que eles cansaram de fazer tanta bagunça na minha cabeça? O silêncio de chegar a um buraco negro da própria existência. É o mais alto dos ruídos. É insuportável.

(Não quero saber se está uma merda nunca disse que era uma boa escritora)

Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos.

Eu achei. Eu achei. Eu sempre achei.

Como um deus e amanheço mortal.

O que estilhaçou na alma, dói no estômago. Tão vil essa certeza mundana. Uma poesia que não interessa. Não arranha. Não incomoda o universo que segue no tempo-espaço.

E assim, repetindo os mesmo erros, dói em mim.

Achei que tinha chegado a algum lugar.

Ver que toda essa procura não tem fim.

Achei que tinha chegado aonde queria.

E o que é eu procuro afinal?

Mas não existe.

Achados e perdidos.

Lá está ela. Meu deus, como ela parece ser profunda. Como ela parece ter um mundo de certezas e um vômito de palavras pronto pra jorrar a qualquer instante. Como é sedutor o jeito que ela olha para o espelho d'água desejando ser engolida por ele. Ou talvez sair berrando, voando, qualquer coisa, tanta coisa, as possibilidades são infinitas.
Olha só como ela se dói inteira como se estivesse numa cena de um videoclipe ou um filme ou um romance feito para impressionar adolescentes. A vida é tão boa, mesmo quando existe melancolia e rejeição e todos esses amores mal-resolvidos (céus, como ela queria poder dizer em letras claras o que a aflige de verdade, mas isso é outra história). Ela sabe que veio, viu e venceu e tem certeza de que vai bem mais longe, porque (e ela tem tanta razão) tem muia coisa pra dizer, coisas que precisam ser ditas, coisas que vão ser ditas do jeito certo.
Fones nos ouvidos, mochila nas costas e um relógio de sol que vai marcando o tempo (implacável, como ela nem sonha) lentamente, e um céu tão imenso, uma roda da fortuna que não para de girar mais e mais e mais.
Ela quer ir embora porque acha que tem muito mais logo além. Ela acha que vai achar ainda mais tesouros depois do arco-íris. Ela quer fazer mais estragos com o incêndio que tem por dentro.

Mas ela não sabe. Ela não faz ideia.

Eu queria poder dizer. Queria poder avisar. Queria poder dizer para não se mover. Não dar mais um passo. Não vai embora. Não queira deixar para trás o que você já tem. Você só vai achar uma letargia de gosto amargo que desce rasgando o seu esôfago. Você só vai se perder.

E aí? E se nunca mais der pra achar?

sábado, 4 de maio de 2013

Uma confissão


Outro dia você veio, com a sua voz mansa de sempre, me dizendo que sente a minha falta. Veio me contar dos seus problemas e quanto tem sofrido com um coração partido e eu queria poder dizer que por dentro senti alegria, ou vingança, como contei aos meus amigos depois. Mas é mentira. A verdade é que não senti nada. Nada além de genuína empatia pelo seu sofrimento. Queria ainda ter muita raiva e eu acho que você até merece, mas é difícil pra mim. Parece que tudo que eu tinha por dentro de você saiu como um assopro e se dissipou no ar. É como se você nunca tivesse existido, se a minha paixão nunca tivesse existido, nada tivesse existido entre nós dois além dessa nossa cordialidade de hoje em dia. Eu queria até poder dizer que sinto a sua falta também, mas achei suas piadas sem graça e já não me encantei com as suas longas verborragias sobre o funcionamento do mundo. A verdade é que eu queria que a mudança na sua vida representasse alguma mudança na minha: Mas ela passou a quilômetros de mim. Não tem nada que eu possa te oferecer além de um ombro amigo e alguns conselhos capengas. Depois, vou me levantar desse banquinho e ir beber e conversar com a minha turma de amigos como se você nem tivesse aparecido essa noite.
Demorou para chegar nesse ponto. Mas acho que um amor único pede uma reação única. De todas as pessoas que me balançaram, você a única que abandonou de vez os meus pensamentos. Até fica difícil entender aquele sentimento, fica difícil acreditar que foi comigo, fica difícil acreditar que era de verdade quando leio o que escrevi. Mas eu sei também que depois de você eu nunca mais fui a mesma pessoa. Agora, eu estou calejada e não acredito mais nas pessoas. Agora, todas as cenas de romance que eu vivi são cenas corriqueiras. Me entristece pensar que tanto amor, o primeiro, foi desperdiçado com alguém que não o queria. É triste saber que eu não vou mais conseguir me apaixonar da mesma maneira, mesmo querendo, mesmo podendo. Você arranhou minha capacidade de amar. Não sinto sua falta, mas eu sinto muita falta daquela sensação de ter uma estrelinha viva por dentro. Eu lembro de tudo o que passamos e parece que faz séculos. Existe um grande abismo entre aquela menina influenciável e encantada e a pessoa austera que eu me tornei. Jamais poderia imaginar que uma paixão assim pudesse mexer tanto com o meu caráter. Eu encontrei o meu caminho e naquele dia, quando estava naquele banquinho, percebi que já não me sentia inferior a você. Nem tive necessidade de te impressionar. Foi tão estranho perceber o quanto eu vivi depois e o quanto mudei, enquanto você é o mesmo. E de repente você encolheu na minha frente. Lembra daquele dia que você me deixou sozinha no vão do MASP e desapareceu, como fazia sempre, como se tivesse se dissolvido no ar? Aquele que era só mais um dos seus testes, no qual eu tinha que provar que eu era boa o suficiente para a sua companhia? Você não sabe que depois eu perambulei por ali por horas, sem saber o que fazer, sem saber se ia tocar na sua porta desaforada te dizendo para parar com esse tipo de palhaçada, ou se ia embora para te mostrar que eu era sim tudo o que você dizia que eu não era? Pois é. Quando você me disse sentado naquele banquinho que era pra eu parar de tocar em determinados assuntos, que eu ia acabar te fazendo chorar, eu percebi que aquela menina que você deixou sozinha não existe mais. Não existe mais faz tempo. Ela morreu. Eu disse isso tantas vezes de mentirinha, para me fazer acreditar que eu tinha mudado ou esquecido alguém e na primeira vez que isso acontece, é uma morte involuntária, que aconteceu sem eu ver e sem eu permitir.
A verdade é que eu queria poder dizer que estou mais feliz agora, quando me levantei dali e fui viver a minha vida, sem nem me preocupar com o que a nossa conversa poderia significar. A verdade é que eu queria muito que a mudança na sua vida pudesse me trazer um pouco da pessoa que eu fui, de volta. A verdade é que eu não sei se é justo eu ser essa pessoa oca, em escala de cinza hoje em dia. Eu não gosto dela. A verdade é que não é justo eu não ter a mesma capacidade de amar, de viver com força e de ser feliz agora que a minha vida está cheia de motivos para eu fazer tudo isso. A verdade é que a maturidade que você me trouxe só me fez menos criativa. A verdade é que eu merecia alguém que tivesse tido tão sincera quanto eu fui. Eu sou uma pessoa mais forte hoje e isso é inegável. Mas eu não quero ser forte. Eu quero estar viva.

sábado, 20 de abril de 2013

O monstro

Sonhei e ouvi tanto clichê e bobagem na vida, eu devo ser mesmo muito piegas. A escuridão dentro de mim costuma urrar vez ou outra e faz todos os meus ossos ressonarem de um jeito que parece que a carne vai se soltar deles e se desfazer. Eu só quero o que todo mundo quer, encontrar um sentido pra vida, preencher o oco por dentro até a morte chegar, aproveitar o tempo que eu tenho. Eu só quero conseguir não ter medo de existir, juntar alma e corpo, tomar posse de mim mesma sem receio algum. Será que tem outro jeito de domar a dor por dentro que não despejando em tinta?

(acho que não hein)

Ao cientista

Não sou o seu projeto
Um objeto de estudos
Um problema a ser sanado
Uma alma a ser ajudada

Não estou aqui pra fazer parte dos seus experimentos
Com medidas exatas e comedidas;
Com condições controladas de temperatura e pressão
Com o seu universo inteiro (que você conhece tão bem) dentro desse seu laboratório

Que fique bem claro que eu não te compro
Com esse discurso de semi-deus.
Você é uma rocha impenetrável
É como tentar plantar em um deserto

Mas eu sei que por dentro
Você está explodindo também
Então não venha querer me consertar
Não sou sua contribuição para o mundo
Não sou uma obra de caridade

Cansei de brincar de brincadeira de gente
Com quem não gosta de ser humano

segunda-feira, 8 de abril de 2013

domingo, 3 de março de 2013

Por.no.gra.fia

Você me conquistou naquele milésimo de segundo em que seus olhos se tornaram lâminas verdes e me cortaram de cima abaixo, navalhando a carne, rasgando a pele. Você pode até tentar disfarçar e se fazer de bom moço, como quando você finge pra mim que não sabe o que está fazendo, mas eu já vi que por dentro você tem entranhas de ponta de faca, e quando eu vejo isso lá no fundo desses seus olhos perigosos te juro que é pra desfalecer de vontade de ir me furar toda. Caralho, dá até fraqueza nos joelhos quando você me olha desse jeito, é uma faca que vem me cortando o ventre e me abrindo inteira. Adoro te fazer perder mesmo as estribeiras, que eu já sou uma mocinha bem crescida e sempre soube o que queria muito antes de você aparecer então não tem regras, não tem limites porque eu gosto mesmo é da sua fera por dentro, gosto de cutucá-la, de vê-la tomar conta de você, quando você deixa de tomar cuidado de de preocupar e me impala que deve espirrar sangue pra todo o canto, sangue brilhante, sangue de presa predada.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Você me faz sentir como lanche da tarde na minha cidade natal. Aquele momento preguiçoso, tranquilo e absolutamente seguro de estar com pessoas que eu amo e confio, e com as quais eu me sinto plenamente à vontade, porque elas são muito íntimas. Aquele momento de ver minha vó despedaçar biscoitinhos para molhar no leite morno, de comer pãozinho de cebola, de ouvir aquele som gostoso da faca cortando o pão. Você me faz sentir como chegar mais cedo da escola e fazer um café, o cheiro impregnando a casa toda, e observar o movimento da cidade da janela, comendo um lanchinho. Aquele momento de ligar a tevê no canal de música e aproveitar o restinho da tarde que eu roubei. Você me faz sentir como dormir no chão do quarto com a minha cadelinha, o sol entrando pela fresta da janela. Aquele momento de sentir o calor do sol nos meus olhos fechados e sentir que está tudo bem, e a vida é boa. Eu quase posso sentir o cheirinho de café quando estou perto de você, e eu nunca pude imaginar que eu iria encontrar essa paz longe de casa na minha vida. E eu espero que talvez exista uma parte de você que está em casa comigo também, mesmo que você tenha tido dezenas de casas em dezenas de lugares diferentes.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O oco

Uma hora você está ali, outra hora não está mais.
Em um segundo você é capaz de se levantar, no seguinte já está imóvel.
O que falta para que você saia andando, como antes? Se tudo está ali dentro direitinho como sempre esteve, todas as engrenagens e fiações, por que falta esse sopro, de onde ele vem, por que ele pára?
Qual é a diferença entre estar ou não está, quando você está ali, olhos cabelos pelinhos dentinhos. O que foi que te tiraram? Pra onde levaram?
E eu aqui vivi minha vida inteira minhas células meus átomos meus batimentos cardíacos todos muito meus, todos sendo tudo que eu sou, pra de repente eles continuarem a ser sem mim, o que é que me faz eu mesma?

(Mas o que mais dói: Existe eu mesma?)