Mas então, por que você gosta dele?
- Bom. É engraçado como essa pergunta é muito simples e muito complicada
ao mesmo tempo. Eu gosto por muitas razões. Algumas são as mesmas que me fazem
odiá-lo, muitas e tantas vezes. Eu acho que eu tenho essa sina, de querer gente
que não me quer. De querer gente emocionalmente indisponível. Sempre gostei de
um delicado, um complicado, um intelectual, um introspectivo. Mas dessa vez,
acho que eu me superei. É que tudo na nossa história é surreal. É mágico. É
piegas falar assim, eu sei, mas é amor. É amor desde o começo. Desde o primeiro
dia, desde sempre. Ele me deu uma coleção de memórias para a vida inteira. De
dar inveja em muita gente com o dobro da minha idade. Tudo foi tão mágico. Foi
tão surreal e ao mesmo tempo tão de verdade, como poucas coisas na vida. Eu
quis ser eu mesma. Eu pude ser eu mesma. Eu gostei de ser eu mesma.
Ele tem aquele charme dos quietos. Aquele jeitinho de abaixar o olhar e
sorrir de um jeito tímido. Ele é tão, tão lindo mas é tão engraçado, ele não
faz ideia, não tem a menor noção do poder que ele tem, de tudo que ele pode
conseguir com aqueles olhos que parecem duas contas de vidro, aqueles braços,
aquele corpo, aquele cheiro, aquele tudo. Às vezes, eu acho que ele até sabe,
mas ele preferia que não fosse assim, preferia se esconder porque ele está bem
acima dessas questões. Eu não estou acima de nada disso. Eu podia ficar olhando
para ele por horas, coisa louca, nunca achei a forma masculina nem agradável ao
olhar, mas desde a primeira vez que ele tirou aquela camisa larga demais para
ele, eu entendi do que os atenienses estavam falando. É milimetricamente
desenhado. É de dar inveja em muito Adônis, Eros, Hércules por aí. E é um
segredo só meu. É só pra mim.
Ele gosta de falar difícil. De falar de coisas que eu não entendo. Ele é
racional e contido, não gosta de explosões, prefere o equilíbrio, mas por trás
de tudo isso, existe uma selvageria, uma coisa indomável, que eu vejo por trás
dos olhos dele de vez em quando. É por esse fogo que eu me apaixonei. É por
esse desafio de tentar fazer esse fogo vir a tona, vir logo, de uma vez. Eu sou
uma menina boba, acho que eu quero esse desafio, eu quero fazê-lo se apaixonar
por mim. Eu quero que ele se apaixone por mim. Em todos os sentidos, de todas
as maneiras.
Ele é um vampiro de almas. Estar nos braços dele é uma escuridão densa,
que penetra fundo, me deixa sem ar. Não é fogo que arde, transforma tudo em
cinzas e se extingue. É um fogo mágico, químico. É alquimia, é feitiçaria. São
chamas escuras que penetram a minha pele e vão queimando lentamente. Queimam
por dias. Cada vez mais fundo, até eu não conseguir mais respirar. É
terrivelmente delicioso ser dele. Acho que, pela primeira vez, eu fui de alguém
por inteira. Da ponta dos pés aos último fio de cabelo. Porque não existe
espaço para mais nada. Ele faz questão de render cada célula, cada átomo. É
viciante, é uma heroína que dá um barato lento, que vai cozinhando cada nervo.
Quando acaba, eu preciso de mais. Antes, podia ser qualquer um. Agora, acho
muito difícil que alguém se compare.
No fim das contas, é tão difícil. O mais difícil é saber que todas essas
coisas que eu sinto, não significam nada para ele. Aliás, ele provavelmente as
despreza. Provavelmente desaprovaria meu jeito de amar, mais uma vez. De ser
tão apaixonada por tudo, quando nada disso é real. Quando nada disso importa.
Talvez ele tenha razão. Mas dói de verdade. A abstinência dói em cada
músculo, dói no estômago, dói na boca, dói nos olhos, dói no coração. Eu
poderia te dar muitas outras razões para gostar dele. Podia te dar tantas
outras para não gostar e mais um monte para odiá-lo. Mas a verdade é que eu
gosto e pronto, como eu soube que iria ser, como eu sempre sei, desde a
primeira vez que o vi. Deu um estalo. Eu soube que ia ser diferente.
E foi.
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