domingo, 20 de maio de 2012
carta para Ela
Olha só, quando você ler isso tenta me perdoar. Eu sei que você não vai gostar, não vai entender, mas eu preciso te dizer que vou te deixar. Acho que já te deixei, já faz uns meses mesmo e eu só não tive coragem de contar. É que eu sei que você confia muito em mim, eu sei que você põe todas as suas esperanças em mim. Mas tente entender, que já se vão seis anos medindo cada passo por você e agora, não dá mais.
Não tome isso como ofensa. Eu sou grata a você. Sem você, eu jamais teria conquistado tudo aquilo de que eu tenho orgulho hoje. Eu admito que muito do que você sonhou pra mim me é muito útil. Só que você é jovem demais, não sabe de quase nada e tem coisas que você é incapaz de prever e entender. Eu fiz tudo do jeito que você queria. Eu deixei de dizer muita coisa por sua causa. Mas o que você quis pra mim foi baseado em imaginação, em masturbação mental, em tantas coisas, menos em vida. E agora eu vivi.
Tem tanto ainda para experimentar. A vida que você criou pra mim, ela foi incrível, mas ela só existe até certo ponto. Agora ela me limita. Ela está me podando. Eu sei que é terrível pra você saber disso, eu me sinto uma traidora ao escrever. Mas é a verdade. Então eu vou te deixar. Eu espero que você entenda que não quero que você se sinta só. Eu não estou te abandonando ao relento. Eu já voltei pra te dizer tudo aquilo que você precisava ouvir. Mas agora eu estou tirando esse peso amarrado nos meus pés para ser mais leve e ir adiante. Eu já não posso mais me preocupar se você vai ter ou não orgulho de mim (mas eu gostaria que tivesse ainda assim). Eu passei tempo demais tentando descobrir quem eu era. Não me arrependo disso.
Mas agora me parece mais urgente descobrir o que é que me faz feliz.
Do que é impositivo e intransigente. Você impõe sua maneira de pensar, de amar, de agir.
Eu já nem sei mais o que é que me incomoda, se é o fato de que você não vai ler isso, ou que você nem percebe o quanto eu estou longe e você ainda age como se eu estivesse por perto.
Não dá pra acreditar no quanto eu ando achando que você está (é?) diferente de mim.
Eu já nem sei mais o que é que me incomoda, se é o fato de que você não vai ler isso, ou que você nem percebe o quanto eu estou longe e você ainda age como se eu estivesse por perto.
Não dá pra acreditar no quanto eu ando achando que você está (é?) diferente de mim.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Eu encontrei meu marinheiro. Ele tem os cabelos escuros e os olhos verdes e aquela expressão cansada de quem já viu muito e viveu pouco. Ele entrou na minha vida à galope, arrombando cadeados, chutando portas, sem tempo para explicações. Sem tempo para as minhas habituais dúvidas cruéis do –estamos indo rápido demais- ou –estou tomando a atitude certa-. Não dava mais para sentir os mesmos medos, repetir as mesmas ladainhas, quando a coisa é tipo um dilúvio que te invade e te diz –Não temos tempo pra frescura dessa vez, hein. Ta aqui na sua frente, se você quer vem pegar. O meu marinheiro é, claro, tudo que eu esperava dele, mas eu já não penso mais nisso. Por que idealizá-lo, se ele não é uma fantasia, não é um boneco, não é um personagem. É alguém de carne e osso que vai me decepcionar em algum momento, mas eu não quero mais nada que não seja bem verdadeiro. Eu encontrei o meu marinheiro e eu o quero por perto exatamente pelo que ele é.
Há mais ou menos um ano atrás eu estava aqui, nessa cama, aos prantos, desesperada tentando entender por que você não me queria. Estava exausta, tinha passado a madrugada num ônibus do paraná até São Paulo, carregado minha mala por algumas viagens de metrô, atarefada o dia todo e ainda no fim de tudo não consegui pagar uma conta importante porque não deu tempo. Parecia que era um inferno astral constante e todas as pequenas tragédias do meu dia-a-dia me faziam me lembrar da dor da rejeição. Você não me queria, você não estava por perto, eu era uma pessoa indesejável, uma mulher que não poderia ser amada, como eu poderia pensar em viver dali pra frente sem você, com as suas alfinetadas estúpidas, com as suas críticas infinitas. Parece que o mundo deu bem mais do que trezentas e tantas voltas ao redor de si mesmo desde então. Tive tanta gente entrando e saindo da minha vida, gente que só passou, gente que ficou por um tempo, que esteve disposta a me devolver a auto-estima que você roubou de mim, gente que me fez feliz, desejada, louca de raiva, tantas coisas aconteceram que eu mal poderia sonhar em viver, pra eu refazer tudo aquilo no que eu acreditava, me permitir ser alguém diferente, me permitir procurar o que (e quem) me faça feliz. E daí dia desses, fui te encontrar por um acaso do destino, ouvir essas suas piadas insossas, e não senti nem mágoa, nem raiva, nem ansiedade, nem nada e é tão simples como sua presença não me provoca reação alguma, eu fico pasma de perceber como aquela paixão que me virou de cabeça pra baixo pôde se tornar absolutamente nada. Talvez porque aquela menina que se apaixonou por você não existe mais. E você não faz o tipo da que eu sou agora.
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