Oi, Espelho. Há
quanto tempo não nos falamos. Tantas vezes eu fugi de você por falta de tempo
ou de coragem de olhar com força pra você. Quantas vezes só o encarei pelo
tempo suficiente para não enxergar de verdade a parte que não corresponde ao
que eu sempre quis ver; a parte ossuda, olhuda, peluda, esbugalhada, torta,
assimétrica e pouco glamorosa.
Mas agora eu não
quero fugir; eu quero olhar porque não quero mais ter vergonha de ser ou querer
nada. Quantas fôrmas eu fiz pra mim, em quantos modelos eu tentei me encaixar.
E quanta gente mentiu pra mim ao dizer que eu precisava ser uma vencedora pra me
redimir de pecados que não eram meus. E enfim hoje sabendo que tive muita sorte
e tem gente que leva pior do que eu percebo que pra me validar me esforcei
tanto que valia morrer para que eu tivesse valor.
Mas não vale. Porque
eu nunca vou ter.
É tão óbvio perceber
que não importa o que eu faça, nunca vai ser o suficiente. Não vai ser o
suficiente para os outros. Não vai ser suficiente para mim. E esse desejo é tão
poderoso quanto suicida. Mas eu consigo ir me livrando dele agora.
Eu aceitei tantas amarras
e fui me amarrando também, me amarrando nas minhas idéias, nas minhas
projeções, nas minhas certezas, me amordaçando, me prendendo, me sufocando.
Engraçado que eu passei tanto tempo achando que ser livre era correr, era ser
selvagem, era poder fazer o que quiser.
E nem percebi. Que o
meu verdadeiro carrasco, que o verdadeiro vigia, estava por dentro. Que eu
sempre fui prisioneira de mim mesma.
Mas não acho que
isso seja nada extraordinário ou incomum.
Só que agora eu
estou, bem devagar, cortando as minhas amarras e cuidando das feridas que elas
provocaram. E agora, Espelho, você não me machuca mais. Eu não tenho mais medo
da minha história. Não tenho mais medo das minhas falhas. Não tenho mais medo
daquilo que eu nunca vou chegar a ser.
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