Eu abro o portão com aquele estalo, a chave emperra e eu passo por aquele outro portão branco, enferrujado, enfio a mão para abri-lo e entro naquele quintal de ardósia e a sua janela provavelmente está fechada. Eu subo um degral, alcanço a maçaneta cor de bronze, redonda, e a porta está emperrada, como sempre e eu finalmente consigo entrar. E vou estar naquela cozinha, balcão preto e branco, armário de madeira de demolição, um zilhão de louças sujas na pia, aquelas panelinhas vermelhas e um monte de contas pra pagar na chaveiro. E a janelinha, com aquela cortina de renda branca, arzinho de fazenda quando você está por ali. Riram de você quando você comentou, mas afinal, riram de você por muitas coisas que você fez e disse. Eu passo pelo batente, e chego na sala, aquele sofá de couro branco encardido, estante sempre vazia, os tacos de madeira e eu não vou para o corredor, eu só viro à esquerda e paro naquela porta branca, com a maçaneta de ponta cabeça, alguma música da sua banda favorita escapolindo pelo vão debaixo dela. Eu toco na porta umas duas vezes e entro sem esperar permissão do jeito que eu sei que você odeia como poucas coisas na vida.
É aquele quarto de nove paredes, do chão de cerâmica e o teto estrelado, um quadro de fotos prateado cheio de desenhos e frases e ingressos de shows porque você está desesperada para mostrar que é alguém. É aquele quarto da cama-sofá, dos rolos e almofadas roxas, de mensageiros do vento e uma cômoda cheia de conchas e bruxinhas e aquele mago Merlim da sua festa que alguém lascou no nariz. É roxo e branco, a cortina de renda, a janela fechada e no meio de tanta sutileza, bem no fundo uma parede toda rabiscada, cheia de raiva. I'm a fake, I'm a fake, I'm a fake, está escrito. Você não é. Ah, se você soubesse que eu tenho uma parede muito parecida agora e que todos os dias quando eu olho pra ela eu lembro de você, talvez você não sentisse tanta raiva. Se você soubesse que vão jogá-la no chão, demoli-la como se fosse papel e nada mais vai restar dessa parede, desse quarto ou dessa casa.
E você se vira pra mim, pronta pra brigar, pra gritar, como sempre e eu sei que você vai se chocar porque não vai acreditar no que vai ver. E eu acho que não vou conseguir controlar o choro, quando eu ver você assim, com esses cabelos compridos e sujinhos, a raiz castanha crescendo em cima da tinta preta, esse sorriso metálico, as unhas com esmalte preto lascado de meses, e as roupas... Provavemente aquela calça horrorosa de tectel azul, e uma blusa de alcinhas e os pés no chão quente do sol que entra. Você com certeza vai estar descabelada, a música te levando prum mundo muito melhor e eu te arranquei disso. Você odeia. Mas eu prometo que vai ser só dessa vez. Prometo que vale à pena.
- Quem é você? - Você vai perguntar, ou, de repente, um mal educado - Que porra é essa? - Mas a verdade é que é óbvio e se eu responder, posso estragar tudo. Então vou sorrir. Um sorriso molhado e você vai ficar meio com nojo porque você não chora, você não chora tem uns cinco meses contados, muito menos na frente dos outros. Você é uma fortaleza.
- Eu preciso te falar umas coisas... Mas você não pode perguntar nada. Eu nem devia ter vindo. Isso pode estragar tudo. Mas precisava.
Eu sei tudo sobre você, sei o que você estava pensando, sei o que te aconteceu hoje mais cedo, sei que você passou a manhã escrevendo tanta coisa sobre tanta gente, coisas que você quer e não compreende, coisas que você não sabe se pode querer. Sei que você chegou em casa e teve que aguentar aquela refeição temperada com veneno de todos os dias. Sei que você vai esperar até um pouco antes do pôr-do-sol e vai sair, com uns cinco reais num bolso, o mp3 azul no outro e vai comprar um chocolate e uma coca-cola, esses prazeres que você precisa esconder e vai ficar uns bons quarenta minutos ouvindo música naquele barranco da estação de trem, o céu côr-de-rosa uma promessa de que existe algum lugar no mundo pra você e um dia você não vai ter mais que fugir pra comer chocolate e coca-cola, e se sentir num ambiente em que você não é um corpo estranho. E você vai voltar quando começar a dar a hora das bruxas e não porque tem alguém em casa esperando por você.
- É o que eu estou pensando?
Depende do que você está pensando. Eu escuto o vocal rasgado de um rockstar qualquer estourando o home theather. Não é bem o que você está pensando.
- Bom. Finalmente criei coragem para o cabelo.
- É como eu imaginava...
- Eu sei. - Sei também que você tem tanta raiva, e que está tão cansada de sentir raiva o tempo inteiro, está cansada de ficar na defensiva como um soldado no fronte, sem um momento de descanso, sem uma brecha de fragilidade para ninguém. - Me dá um abraço?
E você me abraça. Somos da mesma altura, mas você está tão magrinha que cabe em mim inteira, os cabelos ressecados roçando no meu queixo. E eu vou chorar, vou chorar demais, porque tudo isso dói, eu sei o quanto dói e ao mesmo tempo eu consegui tantas coisas que você queria. Eu não te decepcionei. Eu não quero te decepcionar.
- Vai melhorar. - Eu prometo que porque sei que não é uma promessa vazia. - Vai melhorar de verdade. Tudo. - E eu sinto você começar a chorar baixinho no meu peito. Que alivio, né? Cinco meses engolindo o choro, pra mostrar que não é fraca e morrendo de vontade de ter colo. Eu te abraço mais forte. E você soluça. Era tudo o que você queria ouvir, tudo que você precisa ouvir pra aguentar, pra acreditar, e eu sei disso. - Aguenta firme, que melhora. Um dia você vai entender tudo que anda acontecendo, um dia você vai se entender.
- Como...?
- Não posso dizer, mesmo. Desculpa. Mas acredita em mim. Acredita em mim porque eu acho que eu fiz tudo que eu fiz por você. Eu te amo muito, eu não seria nada sem você, então acredita em mim. Por favor.
E você faz que sim e chora mais. Chora muito, aquele choro tímido e contido começo se transformando em soluços meio berrados, e eu te seguro e choro junto e deixo você expugar tudo, exorcizar tudo que está dentro de você. Eu queria tanto que você ficasse orgulhosa de mim.
Você chora até estar inchada e com o nariz escorrendo e eu te abraço mais, muito mais, até você cansar. Então eu te coloco em cima do lençol lilás para você dormir e te dou um beijo e é tão difícil me despedir, dar as costas e ir embora, quando eu queria contar muito mais. Contar tudo.
Eu fecho as cortinas e abaixo um pouco a música, mas vou embora deixando você ser embalada pelo sons do seus sonhos.
Como eu vou embora daqui agora, porta afora, portão afora e te deixo sozinha? Eu sei que é preciso, eu sei. Eu tranco o portão e olho aquela rua de casas grandes, a mangueira cuspindo folhas no asfalto. É preciso ir. Essa história já não é mais minha.
Mas eu te prometo, de verdade. Vai melhorar.
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