Terça-feira, Junho 07, 2011
Quando eu tinha uns cinco anos meu pai me levou até o ateliê de um luthier amigo dele para que eu visse como eram fabricados os instrumentos. Ele tinha cabelos bagunçados e óculos fundo de garrafa e parecia um dos personagens dos livros cheios de figuras que minha mãe comprava pra mim. Achei aquilo tudo curiosíssimo, mas o que mais me chamou atenção foi quando ele me mostrou uma varetinha de madeira, cilíndrica, dentro de um violino:
"Isso é a alma do instrumento. Todos os instrumentos têm. É isso que vai dizer como o instrumento soa. Nenhuma alma é igual à outra."
Que coisa engraçada, me dizer que uma varetinha de madeira é a alma. Quer dizer, aquele instrumento tão bonito, cheio de curvas e formas, e o que fazia diferença era uma varetinha?
Meses depois eu estava tomando aulas de violino, com um violininho um quarto, que parecia de brinquedo. A minha professora me dava uns adesivos lindos toda aula; eu os colava na parede de casa e queria enchê-la inteira com eles.
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Hoje eu tenho umas unhas compridas e ando me interessando pelo som dos instrumentos cuja alma está num amplificador.
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Violino e violoncello. Um cabe dentro do outro. Eu achava aquele violoncello amarelo, enorme, uma besta que precisava ser domada. Sei lá, tão grande, naquele case cheio de adesivos de frágil, e todas as vezes meu pai dizia, quando eu sentava atrás no carro com ele; "Segura seu irmãozinho, não deixa ele cair." Irmãozinho? Eu hein, era maior que eu, bem maior e também ganhava mais atenção.
É esse som grave, meio melancólico, meio furioso. Eu tinha longas conversas com aquele violoncello, quando ele estava me encarando de um canto da sala, com aqueles olhões ocos. Ele era um adulto e eu uma criança; ele sabia segredos do meu pai que eu queria saber.
Mas o meu violininho; ele era só meu. Pequeno, com aquela flanelinha verde, quando eu toquei estrelinha, estrelinha... Era só meu. Neles estavam os meus segredos.
Violino e violoncello, um cabe dentro do outro, mas esse som atrevido, espevitado do violino...
Eu sei que as coisas não saíram assim como elas pareciam que iam sair; comecei a gostar muito de palavras e fui deixando as notas para o violoncello, e daí meu pai me olha com uma carinha triste quando vê o meu último violino - um três quartos, dessa vez. Mas daí eu vou dizer assim, bem aborrecente: Poxa, pai, a culpa é sua. Foi você quem me levou para ver a alma dos instrumentos. Foi por causa de você que eu ouvi que cada um tem uma alma única.
Eu fui procurar a minha.
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