domingo, 13 de novembro de 2011

"Descubra quem você e seja, de propósito."

Quinta-feira, Outubro 14, 2010


No entanto, eu não sei quem eu sou. Há algum tempo atrás eu poderia ter preparado um relatório especificando todas as características que me constituíam como eu mesma. Mas eu descobri o óbvio: colocar tudo isso em prática é muito mais difícil do que eu pensava.
Uma vez eu escrevi que era uma garotinha que se tornava mulher através dos versos-era verdade. Agora, o que eu passei anos escrevendo, ensaiando, é real. E a questão crucial não é tanto ser mulher. Não é tanto ser adulta. É mais que isso. É ser. De verdade. É provar que eu construí um quebra-cabeça de mim mesma sólido o suficiente para não desmoronar.
O dossiê de mim mesma parece simples e funcional. Eu talvez me esqueci que não sou simples e funcional. Sou mais para chiaroscuro, visceral, o incêndio que não pode ser contido.
Mas isso tudo é criar outro dossiê, não é?
Eu me fiz inteira com letras, palavras, frases. Talvez a tinta esteja saindo do papel. Eu olho pra trás e vejo que meu dossiê ganhou uma forma mais ou menos humana. É que, de novo, o incêndio. Faltava combustível. Ele se alastrou; bastou a chama ser bem alimentada. Saiu do controle. Derreteu tudo. As letras, as palavras, as frases, escorreram para formarem novas. Frases novas. Com menos sentido. Incandescentes.
É, não errei tanto assim no meu diagnóstico de mim mesma.
Viver dói. Se queimar dói. Ser um incêndio dói. Mas não posso reclamar de dor; prefiro ser assim esse dossiê de palavras tortas e inflamadas.
Eu continuo sem saber quem eu sou. Continuo sem saber se o quebra-cabeça vai desmoronar ou não. Vai doer para me manter em pé e ser quem eu queria ser. Vai doer quando isso for impossível.
Eu não descobri quem eu sou (ainda).
Mas de uma coisa eu tenho certeza.
Eu sou. De propósito.

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