domingo, 13 de novembro de 2011

Ode à gigante

Segunda-feira, Agosto 09, 2010


Às vezes acho que essa cidade vai acabar por me engolir. Tem alguma coisa no labirinto de prédios e janelas, no ruído agressivo dos motores. É como se o asfalto e o ar poluído soubessem que eu não pertenço. Como se me rasgassem e alcançassem tudo aquilo que eu tento esconder. Que apesar da minha fantasia de libertina atrevida, eu sou uma caipira. Parece que eles sabem que eu sou uma menina da roça e meus ancestrais escondiam dinheiro debaixo do colchão. Eu percebo exatamente quem eu sou quando me fascino com acontecimentos corriqueiros do meu dia-a-dia. Dia-a-dia esse que é uma caixinha de surpresas, um presente perigoso enquanto eu sou uma redundância sem fim. Quando confrontada com os arcos de luz que se espiralam ao meu redor, os faróis, as lâmpadas, os telões, as tevês dentro dos prédios eu me lembro de quem eu sou.
Ainda assim eu não consigo deixar de me fascinar. É que todo mundo aqui tem pressa, como eu sempre tive. Todos estão sempre correndo. Eu estou sempre correndo. Não interessa bem do que estou indo atrás, desde que tenha um propósito. Quando estou subindo escadas rolantes à passos ligeiros, irritadiça e entretida eu percebo novamente que não preciso me sentir ameaçada porque o asfalto sabe que eu sou uma intrusa; a pressa de viver, essa sede de viver estiveram dentro de mim o tempo todo. Eu sou parte. Mesmo que ainda me fascine como uma boba. Eu sou parte porque amo. Amo ser finalmente bem-vinda. Porque esse é um reduto de magia, basta você querer ser mágico. Depois de muito ansiar para me provar que estava apena no lugar errado eu tive a recompensa; eu estava certa. E eu amo porque aqui você pode ser quem quiser. Porque vão parar para te escutar se você realmente tiver algo à dizer. Porque todos querem ir e vir e ver e fazer. Porque para olhos atentos como os meus a rotina massacrante será ricamente recompensada quando você estiver no meio de uma chuva de safiras numa calçada povoada por gente com a mesma marca que você tem marcada na alma, e as luzes vão tremeluzir ao ritmo de alguma melodia estonteantemente dolorosa. Porque todos estão reunidos no mesmo propósito, correndo na mesma direção. Todos têm pressa. Todos têm sede de viver. E é só por isso que o destino me trouxe pra cá; porque sim, eu sou uma caipira. Mas uma caipira que está morrendo de sede de viver.

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