segunda-feira, 14 de novembro de 2011




Luneta 

Os meus pedaços, são milhares. Eles estão em todos os cantinhos do meu quarto, debaixo dos fios que insistem em se emaranhar, no fundo do armário, nas paredes. Pra quê esse mundo interior tão grande? Esse universo já está se criando sozinho, como uma das minhas fábulas. Nunca soube construir a ponte que me levaria de lá pra cá. Estou no limbo. Ando engasgando com as galáxias, os sóis, os planetas que eu construí dentro de mim. Ando vomitando minhas estrelas.

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Rosário 

Rezei uma ave-maria e um pai-nosso por dia por anos. Educação católica filha da puta, eles conseguiram. Conseguiram me incutir a culpa. Culpa. Essa que não é só um substantivo, ou uma mera sensação, mas uma entidade, um ser de vida própria. Por que eu faço as coisas pra se me sentir desse jeito depois? Ser puxada para dois lados está me rasgando ao meio. As tentações me consumem. A carne é fraca. Eu vou para o inferno.

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Incêndio 

Ateei fogo às cadeiras de plástico branco, às intermináveis massagens nos pés, ao chocolate quente das manhãs de segunda. Queimei o caminho por onde você passava, o moletom velho que eu sempre roubava, as indas e vindas, minha mão procurando a sua no meio da noite. Não deixei intactos os pneus dos quilômetros que eu percorri. Fiz dos seus sapatos, das suas ligações,os celulares que sempre interrompiam, labaredas. Queimei os anéis, o doce do meu aniversário, o esperar pelo ônibus do outro lado da cidade. Fiz fogo com meus suspiros no metrô, com minha histeria, com a sua forma na minha (de todos os jeitos) e aquela vez que eu joguei tudo pro alto e voltei pra cama.
Recolhi todas as cinzas, misturei com vodka e bebi.

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Borracha 

Aquela menina sabe tudo, que sabe de todos. Ela está morrendo. Aquela, aquela mesma, aquela de nariz em pé, entediada, presunçosa. Aquela, que vai falar das questões, aquela que nunca se aproximou de ninguém. Aquela que estava sempre esperando a bofetada, aquela intocada, imaculada, aquela que nunca foi, nunca vai, nunca volta. Aquela que não sai da toca, que não dá a cara a tapa, que nem mesmo sabe das coisas que todo mundo sabe (porque pra todo mundo é natural). Aquela que não respira, que não suspira, que não beija, não sente, não sangra, não goza, não fala a verdade, não conhece, não sabe, aquela, aquela, lá, sabe? Está nas últimas, coitada.

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Não é suficiente 

Apenas não é.

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Cimento

Quero silêncio. Quero saber qual é o próximo passo. Quero ficar aqui, quietinha, só mais um segundo. Quero ficar aqui, deitada no chão, porque parece que a terra se deslocou no eixo e eu ainda não entendi bem aonde estão os novos pólos. Preciso descobrir aonde está o norte.


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Gasolina 

Subi no terraço e coloquei os pés no ar. Treze andares me separaram da morte. Esfreguei minhas mãos no cimento, a poeira de asfalto me cobriu de piche. No céu era metade dia, metade noite. Eu vi a lua e o sol, eu vi vermelho, azul, preto. Eu vi minhas mentiras, vi tudo que eu não sei. Eu vi um balde inteiro de incertezas, joguei todas no ar, vi que elas formaram nuvens, bolhas imensas, bolhas de vidro, carregadas de bolinhas de gude. Eu vi o sol e a lua refletidos, vi o céu ficar iluminado-diamante e vi uma chuva cair e espalhar vidro pela cidade toda. Eu vi caquinhos de espelhos, vi tudo diferente. Fiz um pára-quedas de algodão, e decidi pular. Treze andares não mais me separam da vida.


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