Sexta-feira, Dezembro 17, 2010
- Boa noite, pois não...
- Olha, eu queria ligar pra reclamar.
- Reclamar de quê, senhora?
- Como do quê? De tudo, minha filha. Da vida.
- Senhora, esse é um serviço de atendimento ao consumi-
- Exatamente. Eu to viva, certo? To viva e to consumindo. Defuntos não consomem, logo, eu só estou consumindo se estou viva, e estar viva é parte da renda de vocês, né? Então eu posso reclamar da vida.
- Eu-
- Na verdade, você também poderia. Mas sério, foda-se você. Eu nem te conheço.
- Senhora-
- Não sou nenhuma deprimida, ta? O máximo que já cheguei foi no prozac. E não fez nada também, só diminui minha libido. Hahaha, eu com essas minhas imbecilidades. Libido. Idiotice, fiquei menos no cio do que geralmente ando...
- Olha aqui...
- Hm? To olhando. O que é que tem? Você preferia estar ouvindo que os seus planos não são satisfatórios? Eu juro que acho a vida bem satisfatória. Só de vez em quando que ela fica um lixo. Isso é normal, né? Tanta mulher infeliz no casamento acha a vida um lixo todo dia. Eu não, só às vezes. Mas puta que pariu, é foda, às vezes.
- Vou ter que desligar...
- Não desliga não, moça. Eu preciso conversar. E não vai adiantar conversar com ninguém que eu conheço, sabe? Vai ser uma putaria de análises da minha personalidade difícil... Eu nem sei que raios é uma personalidade difícil. Sabe, sou normal. Rio, grito, choro, tudo isso.
Dealwithitdealwithitdealwithitdealwithit
- Hm.
- Você também, todo mundo. Mas foda-se você. Não é nada pessoal, ta? Poderia ser, se eu te conhecesse. Porra, a verdade é que eu odeio todo mundo. As pessoas são lentas, são burras pra cacete, são irritantes. Um monte de gente limitada, queria poder dizer que não dependo de ninguém. Mas aí vem uns filhos da puta e eu acabo me apegando. Apegar é uma merda. Por exemplo, lá vou eu ficando toda animadinha só porque vi uma placa de boas festas. Aaaah, que máximo, estou na metrópole. Antigamente eu tava me lixando pra puta que pariu de onde eu morava, contanto que fosse longe. E agora eu toda emocionadinha com o parquinho ali da esquina, me sentindo fazendo parte. Idiota. Ser feliz é fraqueza. Ser feliz deixa a gente burro, sem ambição. Já falei que odeio gente sem ambição? odeio gente sem ambição. Porra, será que tem um valium aqui...
_ ...
- Ta na linha moça?
- Sim senhora.
- Senhora não, senhora é velha. Eu já nasci com complexo de velha. Acho que tenho síndrome de Peter Pan. Eu queria ser criança pra sempre. Eu era uma criança prodígio. Era uma criança bem inteligente, olhava todo mundo e achava todo mundo burro pra caralho. E me apaixonava por desenhos animados. Nada de ficar me apaixonando por estrangeiros que acabam comigo. Olha, eu costumava ser inteligente e hoje em dia fico remoendo coisas de mil anos atrás.
Lie.
- Ta bom, ta bom, é mentira. Olha eu idiota, acho que engano quem. Você não acredita, né moça? Olha, to numa fossa escrota. E to aqui ligando pra telemarketing. Odeio telemarketing. Odeio todo mundo. Já falei que odeio todo mundo?
- Eu ouvi, senhora.
- Mas você também odeia, senão não me ouviria. Sabe, moça, você é bem sincera. É mais sincera que a maioria das pessoas que eu tenho convivido a vida toda. Eu vou te dizer que vejo as pessoas como alvos do meu interesse. Ih, todo mundo ia ficar puto. Mas é verdade, é tipo. O que eu posso ganhar de você? Claro que a pessoa tem que ser foda pra me dar alguma coisa que eu possa querer. Daí vem alguém foda e te fode. Hahaha, to boa de gags.Daí eu poderia simplesmente dizer, oi, olha só, quero isso e isso e isso de você, mas as pessoas são sentimentais e eu to pouco me lixando pros sentimentos delas. É difícil entender, moça?
- Senhora.
- Finge que ta me vendendo alguma coisa. Melhor, me vende alguma coisa. Me vende um monte de certeza porque perdi todas as minhas. Me vende que eu sou assim assim, uma garotinha legal, não essa porra de furacão que sai destruindo tudo que não aguenta ver nada em pé sem querer dar um bico e fuder tudo. Vai, me vende que eu sou legal.
- A senhora não é legal.
- Não, é claro que não. Olha, eu gosto de gente sincera. Eu queria poder ser sincera. Aliás, queria ser sincera comigo mesma. Queria dizer, olha, sua ridícula, nem a si mesma você engana. Cheia de idissiocrasias pra dizer que se conhece e não é ninguém sem os pedaços que você rouba dos outros. Mas não gosto de você não, moça.
- ...
- Eu não consigo gostar de ninguém. Daí nem vou te iludir, ta moça? Vai que você é aquele castelinho de cartas pra eu vir e vuuuush bagunçar tudo? Só que é foda né. Porque eu to sempre bagunçada.
- Senhora...
- Tudo bem. Deve ter um valium aqui... Há, as épocas que eu me entupia de aspirina pra me achar rebelde e ficava na cama toda dormente achando que ia morrer e que finalmente as pessoas iam gostar de mim.
Lie.
- Mentira. Ninguém vai gostar. Eu não gosto. E você também não gosta, né moça?
- Não. Senhora, infelizmente-
- Ta bom, já entendi. Me deixa desligar. Me deixa fingir que tenho o controle só disso. Vai, continua falando e eu vou desligar na sua cara.
- Senhora, infelizmen-
- Tu tu tu tu...
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