segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Domingo, Setembro 18, 2011

INT. RESTAURANTE DE LUXO - NOITE

ELA, 21, está sentada em uma mesa, muito elegantemente
vestida. Seus olhos estão cobertos por uma venda de cetim
preto. MARINHEIRO se aproxima da mesa e beija sua mão.

ELA
Você tem cheiro de mar. De sal.


INT. RESTAURANTE DE LUXO - NOITE

MARINHEIRO
(Acendendo um cigarro)
Bobagem, princesa.

ELA
(Irônica)
Bobagem? É, deve ser.

MARINHEIRO
Você é nova demais para perder a
esperança desse jeito.

ELA
Se você tirar a minha venda eu fico
cega.

GARÇOM se aproxima da mesa, serve champagne para os dois.

MARINHEIRO
Se você respirar bem pertinho da
taça, as bolhinhas sobem pelo seu
nariz.

ELA
Deve ser por isso que eu fico
bêbada, então. Bolhinhas fazendo
cócegas no meu crânio por dentro.

MARINHEIRO
(Entregando a garrafa para
ela)
Foda-se a taça. Bebe no gargalo.

Ela ri. Bebe vários goles e limpa a boca com as costas da
mão.

ELA
Me leva embora daqui.


EXT. PRAIA - NOITE

Marinheiro e Ela caminham na areia. Ela está descalça, com a
garrafa de champagne em uma mão, um cigarro apagado na
outra. Marinheiro acende seu cigarro com um fósforo e ela dá
uma tragada forte.

ELA
E depois de Istambul?

MARINHEIRO
Norte. Lá pela Sibéria. O dedinho
do pé gangrenou.

ELA
Sério?

MARINHEIRO
Seríssimo! Tive que amputar. Guardo
o dedinho num vidro.

ELA
Sensacional! Eu queria muito poder
ver isso.

MARINHEIRO
Você pode. Tira essa venda.

ELA
Pára. Você acha que eu não quero?

Uma forte onda quebra e molha os pés dos dois.

ELA
Ai, cacete, ta gelada!

MARINHEIRO
Vamos nadar.

ELA
Ficou maluco? Eu vou afogar.

MARINHEIRO
Você sabe nadar.

ELA
Mas já é noite, e o mar está bravo.

MARINHEIRO
É só saber a direção do vento. Já
saltei em alto mar no meio de
tempestade, princesa, eu sei o que
estou fazendo.

ELA
E o meu vestido?

MARINHEIRO
(Sorrindo)
Um vestido desses foi feito para
ser estragado.

Ela sorri de volta.


EXT. PRAIA - NOITE

Ela está deitada na areia. A maré é capaz de cobri-la.
Marinheiro está deitado por cima dela. Ela aperta os cabelos
molhados dele, ele se aproxima.

MARINHEIRO
Tira a venda.

ELA
Seus cabelos são pretos?

MARINHEIRO
Tira a venda.

ELA
Na minha cabeça eles são pretos.

MARINHEIRO
Tira a venda.

Pausa. Ela engole em seco.

ELA
(Sussurrando)
Eu vou ficar cega.

MARINHEIRO
(Sussurrando)
Você já está.

Ela suspira fundo e leva as mãos ao nó da venda. Marinheiro
a beija. Sua boca está salgada e gelada com o mar. Ele
aperta as mãos dela, e os dois desfazem o nó.

MARINHEIRO
(Sussurando)
No canal de Suez, conheci um velho
que vendia vendas, como a sua.

Ele tira a venda, que está encharcada. Joga-a no mar. Ela
está de olhos fechados. Uma onda quebra nos dois, ela começa
a tossir. Cospe água. Abre os olhos.

EXT. CENTRO DA CIDADE - DIA

Ela acabou de cuspir no chão. Zonza, olha a sua volta.
Muitos transeuntes passam por ela. Marinheiro não está mais
ao seu lado.

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