Eu sou livre. Sou livre e não consigo me prender. Uma cela é capaz de minar minhas forças, sugar minhas energias uma a uma. Eu preciso saber que corro sem amarras, que não estou atada a nada nem ninguém. Alçar vôo sem a mais remota preocupação com o que eu deixarei para trás. Sou uma nômade, que só permanece até a doçura de sensações se esgotar, partindo tão logo as experiências não valem mais a pena, para assim recordar com carinho do que vivi ali. Não quero, não preciso perder meu tempo catando cacos ou tapando brechas, se uma vivência é perfeita por si só, por que desperdiçá-la com tradições tolas? Não tente me prender, eu escaparei por entre seus dedos a galope, sem nem olhar para trás, galgando degraus e correndo de constelação em constelação, levando meu arco e flechando estrelas, pescando memórias, colecionando experiências. Eu consigo ser auto-suficiente caso isso se faça necessário, pois tenho a fiel companhia dos meus devaneios absurdos e nada nesse plano material poderá significar para mim tudo que meus sonhos e versos significam. Desista, uma possibilidade concreta jamais me atrairá tanto quando a fantasia de uma história literária, impossível e cósmica. Contente-se em me ter em doses nada saudáveis, cavalares e cítricas, viver uma intoxicação insana por dias apenas antes que a realidade ameace tornar nossa história menos fascinante. Não preciso de clichês mentirosos porque afinal não há melhor mentirosa do que eu. Não prometa o que não vai cumprir e aceite ser mais uma das minhas ludibriosas expressões de arte.
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Não há nada que possa me fazer voltar. Se me pedir eu já estou presa, completamente obcecada, viciada em cada ferroada de cada agulha, e cada tontura e cada borrão. Quero espiralar-me nesse tornado químico e letal e eu me desfaleço totalmente em você, pois não sei muito mas sei ser sua e em cada sensação que você me impor eu vou gritar por mais, como eu sempre grito, porque eu quero entrar nesse choque induzido, nessa erupção de histamina que me sufoca e me mata tão deliciosamente e me cobre inteira, fazendo cada parte minha ser regada por lava derretida, quente. Eu quero que você me ponha no meu devido lugar (só você consegue) e quero sentir você me ferindo tão fundo que o suor vai brotar doentio dos meus poros, pois vamos ser um só amontoado de supersensibilidade, com rios de fluidos corporais abrindo vales em cada pedaço de pele, do sangue à saliva, do suor ao sêmen. São detalhes sujos desse nosso sexo. Cada cheiro , cada gota, cada som, é tudo um sonho, o meu sonho alucinante, e está tudo dentro de uma seringa pronto para ser injetado.
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